Reforma tributária e as exportações: panoramas e reflexões

Por ocasião da realização do I Seminário de Comércio Exterior do Paraná, pelo Diário Indústria & Comércio no dia 17/09/2019, o tema da Reforma Tributária em pauta no Congresso Nacional merece a atenção dos agentes do comércio exterior. Nessa esteira, serve o presente artigo para forçar algumas reflexões do setor exportador acerca do tema.

Após a aprovação da Reforma da Previdência, pela Câmara dos Deputados, a Reforma Tributária parece ser a próxima da fila. Dizemos “parece”, pois, desde que foi criado o atual Sistema Tributário Nacional, em 1966, já se fala em reformá-lo. É verdade que pequenos ajustes foram feitos, principalmente com a Constituição de 1988; contudo, mesmo diante de uma Constituinte, não se ousou fazer uma reforma tão ampla quanto se pretende por meio da PEC 45/2019, que lidera os debates sobre o tema no Congresso.

A PEC 45/2019, formulada pela equipe do Centro de Cidadania Fiscal da Fundação Getúlio Vargas (CCIF/FGV), conduzida pela Professora Vanessa Rahal Canado – recentemente sondada para assumir a chefia da Receita Federal do Brasil – merece um debate mais aprofundado, ao nível das mudanças que propõe.

Contudo, tal medida tem o grande mérito de impulsionar a discussão como nunca antes se viu, levando-a a estágio avançado para os padrões brasileiros, além de ter como âmago a simplificação tributária e dos custos de conformidade, acabando com algumas consideradas “mazelas” do atual sistema, como a guerra fiscal. Se essa última meta será atingida, há receios e enormes dúvidas.

A proposta do CCIF/FGV é, em resumo, arriscada, o de criar um imposto único sobre o consumo, denominado de Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), não cumulativo e que unificará a tributação federal, estadual e municipal sobre essa base tributária. A ideia é que o IBS esteja plenamente implementado em um prazo de transição de 10 anos e de até 50 anos para a equalização das transferências de recursos aos estados e municípios.

 A administração do IBS será centralizada sob o comando de uma única autarquia federal, a qual será responsável pelo recolhimento do tributo e seu controle, e aí incluídas as utilizações de créditos acumulados e as transferências aos estados para os ressarcimentos. É nesse ponto do ressarcimento dos créditos acumulados que a proposta toca os anseios das empresas e dos estados exportadores.

Para as empresas, a monetização do grande volume de créditos que acumulam, principalmente de ICMS, decorrentes das exportações que realizam é essencial. A não devolução desses valores pelos estados impõe-lhes um custo financeiro que toca às raias do insustentável, já que, em última instância, adiantam, em forma de preço/custo de aquisição, todo o ICMS da cadeia produtiva na esperança de que, concluída a exportação, esse imposto por elas arcados seja a elas devolvidos, direta ou indiretamente.

Aos estados exportadores, a sistemática atual traz o impacto da impossibilidade de não tributar as exportações realizadas e, ainda, o de suportar um grande passivo face a seus contribuintes exportadores. Na origem, a promessa era de que a União ressarciria esses estados, por meio de repasses; o que não se concretizou em mais de 20 anos de vigência da Lei Kandir, motivando representantes dos estados afetados manifestarem seu descontentamento, como fez recentemente o Presidente da Assembleia Legislativa do Paraná, como noticiado pelo Diário de Indústria & Comércio na edição do dia 13/09/2019.

A PEC 45/2019, a seu modo, pretende solucionar esses entraves.

Para atender aos exportadores, a proposta prevê a devolução dos créditos de IBS acumulados, em prazo a ser definido em Lei Complementar – porém, sugerido de até 60 (dias) -, o que seria operacionalizado pela tal autarquia federal, por meio de um Comitê Gestor, com participação dos estados e municípios, mas sem que os recursos adentrem ao caixa desses entes.

Já para atender a perda arrecadatória dos estados, a PEC propõe que a composição da alíquota do IBS leve em consideração as necessárias transferências àqueles entes, na proporcionalidade das exportações neles realizadas.

Ao fim e ao cabo, são as mesmas propostas realizadas quando da aprovação da Lei Kandir, feitas, agora, de forma mais efetiva e confiável, prevendo-se, ao menos, a origem dos recursos para o ressarcimento. A ideia é de que a autarquia responsável pela administração do IBS, por meio de uma espécie de Comitê Gestor gerencie e direcione o repasse aos exportadores, evitando que os valores entrem nos Tesouros Estaduais.

A proposta parece lógica e evidente. Porém, algumas dúvidas e inquietações merecem ser evidenciadas.

Até que ponto as operações vinculadas à exportação serão desoneradas? Ou seja, o produtor rural que entrega sua produção a uma comercial exportadora, ou a uma cerealista que processará o produto e o exportará, também estará albergado pela desoneração e terá direito ao ressarcimento dos créditos por ele acumulados? Serão mantidos benefícios como o drawback, ou o importador deverá adiantar os tributos aduaneiros, à vista, e aguardar o prazo de ressarcimento, suportando os custos desse fluxo de caixa?

Em respeito ao ressarcimento dos créditos acumulados não está claro na proposta, também, qual será o tratamento dado aos créditos de ICMS que já estão acumulados e que se acumularão no período de transição entre o atual modelo e o idealizado pela PEC 45/2019. Esses créditos serão ressarcidos tal qual os de IBS, ou serão perdidos, desconsiderados?  O prazo de ressarcimento será cumprido em qual momento, antes, durante ou após os períodos de transição?

Do ponto de vista dos fiscos estaduais, resta saber se as transferências ocorrerão já durante o período de transição, ou só após a equalização dos repasses, no longínquo 50º ano pós-reforma. Além disso, para fins de definição do direito aos repasses, qual será considerado o Estado onde foi realizada a exportação, o do domicílio do exportador, ou aquele onde se verificar o despacho aduaneiro? A equalização das políticas fiscais advindas da unificação tributária promovida pelo IBS não afastará exportadores de polos longínquos, atraindo para grandes centros produtores?

Para a sociedade brasileira resta se perguntar se todos os brasileiros, moradores ou não de estados exportadores, estarão dispostos a sustentar uma alíquota de IBS que em sua composição encontram-se os recursos necessários para ressarcir os entes federados exportadores.

Aparentemente todas essas questões serão dirimidas por Lei Complementar a ser aprovada pelo Congresso Nacional. Contudo, não se tem claro sequer os limites ao legislador infraconstitucional, o que poderá desnaturar toda a sistemática proposta. Para se ter uma ideia, apenas para a discussão da PEC 45/2019 na Comissão Especial instaurada na Câmara Federal foram apresentadas, até a conclusão do presente artigo, 114 propostas de emendas ao projeto, sendo que o prazo para novas proposições ainda não se encerrou.

Como se nota, a PEC 45/2019 tem grandes virtudes, uma delas a de fomentar o debate de forma tão presente como nunca antes se havia visto de forma vigorosa, profunda e relevante. Porém, como todo projeto de grande obra, a sua concretização e implementação traz dúvidas que não podem ser menosprezadas nas discussões. O sistema tributário merece ser simplificado e racionalizado, mas, para tanto, não se pode escapar da complexidade que a discussão do tema envolve.

Artigo escrito por Carlos Eduardo Makoul Gasperin e Guilherme Gomes X. de Oliveira