,

Boletim Extraordinário – 24/05/2019

As Inovações trazidas pela MP 881/2019 – “Declaração de Direitos de Liberdade Econômica”

Dr. Carlos Eduardo Makoul Gasperin, advogado do Escritório Casillo Advogados

O Governo Federal publicou, em 30/04/2019, a Medida Provisória (MP) 881/2019 que institui a chamada Declaração de Direitos de Liberdade Econômica, voltada a estabelecer regras de atuação do Poder Público face a atividade empresarial e de interpretação de normas e atos por ele expedidos em diversos ramos do direito.

A referida MP traz, ainda, aperfeiçoamento de normas contratuais e societárias em temas específicos, convergindo-as com a jurisprudência atual de tribunais superiores, em linha, também, com entendimentos doutrinários mais relevantes sobre os temas.

Modifica-se o artigo 50 do Código Civil Brasileiro, que trata do instituto da desconsideração da personalidade jurídica, impondo-se regras mais claras para sua aplicação, inclusive de forma inversa, que passa a ser expressamente admitida. Estão esclarecidos e delimitados os pressupostos exigidos para caracterização do abuso de personalidade jurídica exigido para a aplicação do instituto, quais sejam:

(i) desvio de finalidade, definido como utilização dolosa da pessoa jurídica para lesar seus credores ou praticar atos ilícitos; ou

(ii) confusão patrimonial, que ocorrerá quando inexistir separação real (de fato) entre o patrimônio do sócio e da sociedade, caracterizada pela (a) assunção repetitiva pela pessoa jurídica de obrigações de sócios e administradores, ou vice-versa, (b) transferência de ativos e passivos – de valores que não sejam irrisórios – para essas pessoas sem a devida contraprestação ou (c) por outros atos que descaracterizem a autonomia patrimonial da pessoa jurídica ou de seus sócios e administradores.

A MP deixa claro, ainda, que a existência de grupo econômico ou a expansão/modificação de atividades da pessoa jurídica, por si só, não podem gerar a presunção de que há abusos para fins de desconsideração da personalidade jurídica.

Vê-se, então, que no tema em questão, a MP 881 traz parâmetros claros e objetivos para a aplicação de um instituto antes envolto em um ambiente decisório altamente subjetivo, propulsor de insegurança jurídica e complexidades ao ambiente de negócios nacional. A alteração promovida no citado art. 50 do CC, aliás, terá o condão de trazer luzes para outras discussões semelhantes vivenciadas em outras áreas do direito, como a trabalhista e tributária.

A busca pela previsibilidade e garantia de um ambiente estável de negócios, um dos pilares da MP 881/2019, está por detrás das mudanças em regras básicas de interpretação contratual, mas que trazem grande impacto na dinâmica empresarial.

Buscou-se restringir a interferência estatal na aplicação, revisão e interpretação dos contratos particulares, com o objetivo, inclusive, de dar contornos – ainda que não tão claros – à chamada função social dos contratos, que agora deve ser entendida sob a égide dos princípios e normas trazidas pela MP. A interpretação de cláusulas contratuais também foi objeto de regulação. Resta especificado que, em caso de dúvidas, as normas de contrato de adesão serão interpretadas favoravelmente ao aderente e, nos demais contratos, à parte que não redigiu a cláusula objeto de controvérsia.

Esclareceu-se que é lícito às partes estabelecerem critérios objetivos para a interpretação de cláusulas de revisão e de resolução dos contratos, medida salutar para evitar a judicialização das relações contratuais.

Ainda na esfera contratual, a nova Medida Provisória adota técnica de alocação do risco, oriunda do law and economics, determinando-se que nas relações interempresariais deve-se presumir a simetria das partes devendo ser observada a alocação dos riscos por ele definidos em contrato. Tal dispositivo é de suma importância, pois trará impactos na definição de responsabilidades contratuais e extracontratuais das partes intervenientes e os deveres de reparação daí inerentes.

Já no plano societário passa-se a permitir a existência de sociedade unipessoal de responsabilidade limitada, estrutura que visa a acabar com os “sócios de uma quota”, medida que facilitará a criação de subsidiárias de empresas limitadas, realidade antes existente apenas para as sociedades anônimas. O novo instituo da sociedade unipessoal, contudo, ao fim e ao cabo, esvaziará a empresa individual de responsabilidade limitada, que é permeada de restrições (capital mínimo de 100 salários-mínimos) e requisitos (uma EIRELI por pessoa). Para a EIRELI, a MP esclarece o óbvio: apenas o patrimônio social é responsável pelos atos da pessoa jurídica.

A MP 881/2019 traz, ainda, arcabouço regulatório para os fundos de investimento, alterações na Lei das Sociedades Anônimas no que tange a desburocratização dos boletins de subscrição de ações e dos procedimentos de abertura de capital para companhias de pequeno e médio porte, no afã de fomentar o mercado de capitais brasileiros por meio da atração de novas empresas.

Por fim, a Medida Provisória trata de uma série de medidas que visam a diminuir a litigiosidade e o contencioso tributário judiciário e administrativo ampliando e esclarecendo as hipóteses em que a PGFN e a RFB não atuarão, permitindo, inclusive, que a PGFN realize, em parceira com o Judiciário, mutirões para enquadramento de processos existentes nas hipóteses de não atuação.

A MP 881/2019 traz inovações e modernizações importantes que impactaram a atuação empresarial em suas mais diversas áreas, motivo pelo qual requer atenção e estudo. A equipe de Casillo Advogados coloca-se à disposição para auxiliar nas questões e demandas advindas dessa nova realidade legislativa.